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O espírita, a interdição ao corpo e o carnaval

Publicado em 23 de março de 2017 por Parceiros

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O espírita é, antes de tudo, uma pessoa, um ser humano, um “ser no mundo” que, como tal, vive o mundo e suas possibilidades conforme suas necessidades, carências e expectativas. Não perder essa dimensão humana de si mesmo é caminho de segurança para a própria felicidade, pois o contrário significaria viver uma ilusão, talvez a pior delas, que é a ilusão sobre si mesmo.

O espírita é, antes de tudo, uma pessoa, um ser humano, um “ser no mundo” que, como tal, vive o mundo e suas possibilidades conforme suas necessidades, carências e expectativas. Não perder essa dimensão humana de si mesmo é caminho de segurança para a própria felicidade, pois o contrário significaria viver uma ilusão, talvez a pior delas, que é a ilusão sobre si mesmo.

Sendo assim, é natural que o espírita, como pessoa que é, viva o mundo e no mundo, sem que isso signifique seu apequenamento evolutivo, se assim me posso expressar. Pensam de modo diferente, porém, aqueles que ainda estão marcados por um religiosíssimo atávico, idiossincrasia não só reencarnatória, mas também da atual existência, segundo o qual “experimentar as coisas do mundo” é pecado, é um erro, especialmente quando esse “experimentar” guarda relação com o corpo.

É que o corpo, para quem se pauta por um viés religioso-tradicional, é tratado como sinônimo de sujo, de animalidade. O corpo simboliza a matéria, densa e bruta, enquanto o que se sonha é o vaporoso, o diáfano, o espiritual. Daí porque os discursos religiosos costumam seguir na interdição ao corpo, a tudo aquilo que pareça exaltá-lo, experienciá-lo, considerando que isso é marca daqueles que se entregam a “desejos mundanos” e, por isso, ainda demais inferiorizados e distantes do ideal de perfeição a que se aspira. Os espíritas, nada obstante o Espiritismo seja uma doutrina progressista e libertária, ainda seguem por esses caminhos. Na vivência espírita, o “corpo” não tem vez, sendo sempre barrado das mais variadas formas: na mediunidade, o “corpo” deve permanecer impassível, sem movimento, pois isso indicaria “indisciplina” para aplicar o passe, o “corpo” não pode ter

atividade sexual no dia anterior, pois isso “macularia” os fluidos; diante de uma palestra que agrada, encanta, não se pode aplaudir (expressar “corporalmente” um estado de felicidade e contentamento), pois isso “desequilibra” o ambiente; se estamos em férias, não se deve curti-las em demasia, pois isso seria entregar-se ao jugo do “corpo”, numa espécie de ostracismo imerecido; se há uma festa, não se pode dançar (movimentar o “corpo” para aliviar as tensões e buscar satisfação, inclusive física), pois “dançar” é demonstração de necessidades menores…

O corpo, assim, segue sendo o grande vilão evolutivo, pois é sinônimo de “carne”, que é “fraca”, e se impõe a necessidade de fugir do seu império…

Discursos e posturas desse tipo desembocam em erro de percepção. Acredita-se que “negar o corpo”, que seria o mesmo que “negar os desejos”, seja a melhor forma de se espiritualizar. Entretanto, a negação só promove distanciamento, fuga e sofrimento, pois é o reconhecimento do corpo e, consequentemente, dos desejos, que torna o ser consciente de si mesmo, de suas necessidades, capaz de avaliar seu alcance, sua extensão e seu impacto. De tal tomada de consciência depende uma “clareza evolutiva”, característica de espíritos maduros, que garantem um estado de tranquilidade interior, marcado pela compreensão de possibilidades e limites que, por via de consequência, conduz à “vivência do mundo” e à “experiência do corpo” sem sentimento de culpa.

Tudo isso tem a ver com o carnaval. O Espiritismo não o condena, mas os espíritas, em sua maioria, sim, especialmente alguns espíritos que, ou viveram um despertar espiritual marcado pela percepção dos próprios excessos, ou tiveram experiências religiosas de plena “interdição ao corpo” (celibato, clausura, mortificações…). E usam da “interdição ao corpo” para disseminar um discurso de terror, de amedrontamento

e de interiorização, olhando-se para os possíveis e reais “excessos”, cometidos por alguns, como se fosse algo inevitável a quem vá “curtir o carnaval”, esquecidos de que a experiência da “educação pelo temor” não produz efeitos salutares, há muito fracassou.

Se pensarmos pela via do excesso, outras tantas festas abrem portas para tanto, como o Natal, as confraternizações de final de ano, as festas de aniversário, uma comemoração em família… E que dizer dos “excessos morais”, praticados sobretudo por aqueles que interditam o próprio corpo, mas se esbaldam em maledicência, orgulho, intrigas e julgamentos morais de todo tipo?

No carnaval há espíritos vampirizadores daqueles que se entregam ao uso desenfreado do álcool e outras drogas, bem como de práticas sexuais desequilibradas?

- Sim, há. Mas também os há no cotidiano, em casa, no clube, numa festa de aniversário. A questão não é o lugar, mas o sujeito;

No carnaval, posso me contaminar com fluidos deletérios?

- Sim, pode. Mas também pode se contaminar no trabalho, na escola, na faculdade, na via pública, numa festa de formatura. A questão, novamente, não é onde você está, mas a que tipo e influência você se sujeita;

No carnaval, há pessoas mal-intencionadas e dispostas à violência?

- Sim, há. Mas também se encontram na esquina da rua de nossa casa, na saída do trabalho, no ponto de ônibus ou de metrô. Em todos os lugares, temos que saber onde, como e com quem andar. Não é diferente no carnaval ou de onde quer que seja;

No carnaval, há excessos de todo tipo?

- Há, sim. Mas também os há em todos os momentos da vida, desde que as pessoas estejam dispostas a esses excessos.

Também há relatos de médiuns que veem espíritos desta ou daquela forma, com tais ou quais características... mas também não existem na rua, nas festas de aniversário, de formatura, nas escolas e faculdades, onde há excessos e intenções infelizes? E será que o "saber antes" que tais espíritos estão por lá não "predispõe" a pessoa a vê-los ou senti-los? Em outro texto, abordarei essa questão com o exemplo do Mercado Modelo de Salvador.

A questão é muito clara:

- Se você reconhece suas fraquezas e sente que pode se influenciar, não vá;

- Se você não consegue vencer o medo da violência, não vá;

- Se você acredita que vai te fazer mal, não vá;

- Se você não gosta de multidões, como eu, não vá;

- Se você acha que é errado ir, não vá mesmo!

Agora, se você está em paz, não sente medo, gosta, acha certo e quer ir, a decisão de ir ou não é sua, não dos espíritos ou de quem quer que seja. Talvez você corra alguns riscos, mas comer azeitona também é perigoso...

Conheço milhares de pessoas que gostam, vão e voltam e continuam suas vidas. Aliás, é o que acontece com a grande maioria.

A “carne” só é “fraca” para o espírito que é mais fraco do que ela. Para os que reconhecem as próprias fraquezas e as próprias virtudes, a carne (corpo) é um instrumento, um caminho de realização de si mesmo, dos próprios desejos, dos objetivos superiores da encarnação, buscando fugir dos excessos de todo tipo e “experienciando” a vida material em tudo aquilo de bom que ela tiver para oferecer, segundo gostos e preferências. Que cada um construa seu próprio caminho, que se reconheça como sujeito, e não mero objeto da evolução, e reconheça seus próprios limites e possibilidades. E que não se esqueça dois aspectos muito importantes em todo esse contexto: responsabilidade e respeito. Somos responsáveis por tudo que fazemos, a nós mesmos e aos outros. Se agirmos sempre com respeito, pelo outro e por nós mesmos, que mal há em “viver”?

Texto gentilmente cedido por Pedro Camilo

 

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